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O gênero da Ciência

  • Por: Isabela Branco
  • Mar 5, 2020
  • 5 min read

Foi necessário muita luta para que mulheres pudessem se inserir em espaços que, em termos históricos, sempre foram tidos como masculinos. No meio acadêmico, por exemplo, mais do que talento e criatividade, foi preciso força para driblar os obstáculos, tal qual o impedimento de matrículas nas universidades, que vigorou até meados do século XX em diversos países.


Em termos gerais, a participação de mulheres nas ciências é anterior à Antiguidade Clássica. No livro Elementos, de Euclides, por exemplo, há uma ilustração em uma tradução medieval datada do século XIV que mostra uma mulher ensinando geometria. Historicamente, Hipátia de Alexandria é creditada como a primeira matemática. Ela foi assassinada, coincidentemente, dia 8 de março, atual dia Internacional da Mulher, por um grupo fanático religioso durante a ascensão do cristianismo e alguns historiadores sugerem que sua morte foi um marco uma vez que demorou centenas de anos até surgir outra matemática.


A Revolução Científica pouco ajudou a quebrar os estereótipos de gênero já profundamente enraizados, de fato, fortaleceu-os. A visão era de que a mulher não detinha da mesma capacidade de gerar conhecimento que os homens. A elas, a responsabilidade do núcleo familiar, do privado. A eles, as diversas possibilidades do mundo público.


No Brasil, o cenário começou a mudar no final do século XIX, com a possibilidade de mulheres se profissionalizarem em magistério. E até hoje há uma predileção por cursos voltados a educação: segundo o Censo da Educação Superior do Inep de 2018, elas correspondem a 71,3% das matrículas nos cursos de licenciatura.


O fato das mulheres serem maioria em faculdades voltadas à educação não só aponta, mas reforça a existência de um estereótipo, do que se entende como características e qualidade femininas, como empatia, compaixão e paciência, muitas vezes baseado na visão de mulheres, primeiramente, como mães, cuidadoras e não como indivíduos genuínos. De fato, o número de mulheres com bolsa de pesquisas CNPq na área de saúde é quase de três vezes maior do que o de homens.


Apesar da conquista do direito à educação formal e de atualmente corresponderem a pouco mais da metade do corpo discente nos institutos de ensino superior do Brasil, os ingressos não são igualmente distribuídos, há a formação de “guetos” femininos: uma concentração nas áreas de educação e saúde, como dito e distantes do chamado STEM (do inglês: ciência, tecnologia, engenharia e matemática).


A astrônoma alemã do século XVII, Maria Winkelmann, foi privilegiada ao nascer numa Alemanha que permitia o envolvimento de mulheres em ciências observacionais — nesse período, elas eram cerca de 14% dos astrônomos do país —, foi educada em casa e teve oportunidade de trabalhar na carreira que gostaria ao casar-se com outro astrônomo, se tornando sua assistente. Anos depois, após a morte de seu marido, ao tentar concorrer um cargo na Academia de Berlim, foi rejeitada talvez por nenhum outro motivo além de seu gênero. As dinâmicas de poder dentro do meio acadêmico nesse período se estenderam por séculos e, de certa forma, perduram até os dias atuais: mulheres não ocupam proporcionalmente posições de liderança nas áreas de exatas. Pesquisas desenvolvidas sobre o tema chamam esse processo de afunilamento no STEM de “efeito tesoura” no qual o número de garotas já começa a cair do ensino fundamental ao médio (a partir de dados de participação e prêmios em olimpíadas brasileiras de ciência e análise de desempenho no ENEM). Na graduação desse eixo, já ingressam como minoria, permanecendo assim pelo resto da carreira e diminuindo percentualmente em cargos mais elevados. Suas carreiras não evoluem concomitantemente aos seus colegas homens.


Analisando o recorte existente na Universidade de São Paulo, no Instituto de Física de São Carlos e Instituto de Ciências Matemáticas e Computacionais (IFSC e ICMC), o efeito tesoura fica evidente. No departamento de Física e Ciência dos Materiais, 92,10% dos professores pesquisadores são homens e no instituto como um todo, não há sequer uma mulher como professora titular, o maior cargo para a carreira universitária.

No Departamento de Física e Ciência Interdisciplinar é onde se encontram a maioria das mulheres do instituto: oito, de onze, e também vai em contramão ao efeito tesoura, já que cinco, o que corresponde a 31,25% dos professores doutores são mulheres. Isso acontece novamente no Departamento de Matemática Aplicada e Estatística (SME) do ICMC em que 69,23% do cargo é ocupado por mulheres.





Historicamente, o eixo de computação, no seu início, era dominado por mulheres, umas das poucas carreiras que lhe eram permitidas e socialmente aceitas. Devia-se ao fato de que, antes do surgimento dos computadores pessoais, as máquinas eram usadas em empresas para cálculos e processamento de dados, tarefas posta ao secretariado, composto senão majoritariamente, em grande peso por mulheres. O quadro se inverteu de tal forma que hoje é preciso realizar incentivos com intuito de atrair garotas e mulheres para bacharelados voltados a esse eixo. Um exemplo é o Technovation Summer School for Girls, projeto do ICMC para jovens de escola pública. Com os dados acima, fica ainda mais evidente como, até na área de computação, por mais que seu passado tenha sido positivo, já não é mais realidade hoje. O Departamento de Ciências de Computação (SCC), inclusive, aponta para algo curioso: as mulheres são 80% dos professores doutores, o que vem em contramão com a quantidade de graduadas no bacharelado de Ciência da Computação, correspondendo a apenas 9%. Já o Departamento de Sistemas de Computação (SSC) não há sequer uma professora titular.


Tendo em vista todos os dados apresentados, é inevitável concluir que há um aparate, uma enorme desproporção entre cientistas mulheres e homens. Por conta disso, e também, possivelmente, através do respaldo da estrutura sexista, além de não ocuparem esses lugares, quando o fazem, a permanência dentro da academia não é simples. Para além da não representatividade e problemas estruturais como necessidade de creches para cientistas que são mães, muito se fala sobre o preconceito sofrido num ambiente prevalentemente preenchido por homens e coordenado por homens.


Quanto a isso, em outubro de 2018, num workshop sobre teoria de alta energia e gênero no CERN, o físico Alessandro Strumia da Universidade de Pisa deu uma palestra controversa do que chamou “teoria de gênero”, onde argumentou que, não mulheres, mas sim homens, sofrem preconceito no meio científico-acadêmico. E, com os incentivos propostos nos últimos tempos, a mulher estaria num lugar de privilégio perante os homens.


Boa parte da fundamentação de sua palestra foi baseada no chamado “paradoxo de gênero”, um fenômeno que afeta países como a Noruega: ainda que a taxa de igualdade seja significante, mulheres continuam não optando por carreiras no STEM, o que “comprovaria” a existência de uma vocação feminina.


O argumento é, sem sombra de dúvidas, superficial e simplista, baseado puramente em especulações. Os avanços para equidade de gênero começaram na Noruega por volta do século XIX (com atos jurídicos como a possibilidade de trabalho à mulheres solteiras em 1839) e ainda assim é utópico propor que em duzentos anos foram completamente superados o patriarcalismo existente desde o início das civilizações ocidentais. E o raciocínio “Noruega é um país igualitário, mas, mesmo assim, há uma desproporção quanto ao ingresso e permanência no STEM, logo não é uma vocação ‘feminina’” é deliberadamente enganoso, falacioso. E mais: dizer sobre “vocação” abre brechas perigosas, possibilidade de justificar sexismo e deslegitimar as intensas lutas internas no meio acadêmico, como associações de físicas e matemáticas que promovem pesquisadoras, políticas para atrair as jovens para essas áreas, como olimpíadas científicas para garotas e etc.


O fato é que mesmo que ciência não tenha gênero, conhecimento não tenha gênero, ainda sim, há implicações por detrás de quem a exerce. A falta de mulheres em cargos de liderança dentro da academia resulta num ambiente que, inevitavelmente não sabe proporcionar, por falta de conhecimento, ainda, as mesmas condições para todos, e a evasão, tanto quanto a falta de interesse e o escassez ingresso culmina para os dados apresentados e pontuados aqui. Exatamente por isso é a necessária a ampla divulgação de mulheres cientista, de projetos, incentivos e lutas para que a realidade mude.


 
 
 

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