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#ElasCientistas I: Emmy Noether

  • Por: Isabela Branco
  • Mar 19, 2020
  • 4 min read


A história do Congresso Internacional de Matemáticos (ICM) é a história dos mais proeminentes de suas épocas, conhecido na academia como o equivalente a um “hall” da fama. Foi no ICM que, por exemplo, David Hilbert anunciou seus 23 problemas matemáticos e é também onde são entregue as premiações das medalhas Fields a cada quatro anos. O primeiro aconteceu em Zurich, em 1897, com cerca de duzentos matemáticos de diversos países, dentre esses, quatro mulheres, apenas ouvintes.


Em Kyoto, Japão, no ano 1990, há uma história de que, quando Karen Unlenbeck, matemática estadunidense pioneira em equações parciais diferenciais geométricas, foi convidada a discursar no ICM, ela mencionou a um colega que sucederia Noether. Ele, surpreendido, não reconhecia o nome como uma matemática, presumia, que fosse um homem. Esse caso não foi um ponto fora na curva, o jornal The New York Times diz que, por mais que cientistas não sejam as pessoas mais facilmente inclinadas a serem famosas, nenhum outro consegue se igualar as “profundezas de uma obscuridade perversa e imerecida” como Emmy Amalie Noether.


Nascida em Erlangen, Alemanha, tinha origem judia de comerciantes de ferro. Seu pai, Max Noether, o primeiro acadêmico da família, era matemático e seus irmãos também seguiram dentro da academia. Numa época em que a vida de uma mulher era facilmente resumida em ser esposa e mãe, após terminar seus estudos básicos, em 1900, Noether obteve um certificado para lecionar inglês e francês, mas logo decidiu por um caminho ainda mais complicado: ingressar numa universidade. Ela começou então a assistir aulas de matemática, línguas romanas e história na Universidade de Erlangen, como aluna visitante, já que a instituição não aceitava mulheres, e ela precisava, ainda, pedir a permissão de casa professor para frequentar suas aulas. Era uma de duas mulheres presentes na instituição nesse período.


Paralelamente estudava para o exame de ingresso do programa de doutorado, o qual passou em julho de 1903, ingressando na Universidade de Gottingen, agora estudando apenas matemática. Novamente, ela continuou apenas como visitante. Retornou a Erlangen um semestre depois, após a mudança de regras que garantiu a possibilidade de matrícula. Concluiu seu doutorado orientada por Paul Gordan, conhecido como “o rei da teoria dos invariantes”, em 1907.


Por ser mulher, continuou na universidade de Erlangen ajudando seu pai, já um pouco desabilitado, mas impedida de dar aulas. E passou a estudar álgebra abstrata de um ponto de vista aritmético sob a influência de Ernst Fischer.

Devido ao alcance e relevância de seus trabalhos publicados, sua reputação crescia cada vez mais e cada vez mais recebia convites para participar de reuniões anuais entre matemáticos para que pudesse expor seus trabalhos.


Em 1915 Hilbert convidou Noether para retornar a Universidade de Gottingen. Nessa época Hilbert estava trabalhando com Einstein na teoria de gravitação, a relatividade geral, e eles precisavam de ajuda porque a teoria parecia violar um dos princípios físicos mais conhecidos: a conservação de energia. Convidaram Noether por conta de sua expertise em invariantes, isto é, números que podem ser manipulados de várias formas e permanecerem constantes. Os membros da faculdade, entretanto, não queriam aceitá-la como professora, uma vez que ela teria uma cadeira no conselho da academia. Hilbert tentou argumentar, sem resultado, de que “não conseguia entender como o sexo de uma candidata poderia ser um argumento contra ela, já que ali era uma universidade, não uma casa de banho”. O máximo que Noether conseguiu, no entanto, foi uma posição informal e não assalariada, dando aulas em nome de Hilbert.


O resultado do trabalho dela em relação a teoria da relatividade foi o Teorema de Noether, um teorema revolucionário e de consequências extraordinárias para física. Em essência diz que para toda simetria contínua na natureza haverá conversação de algum parâmetro. Por exemplo, uma roda de bicicleta tem uma simetria contínua, ou seja, é possível rotacioná-la a quaisquer valores que permanecerá igual e, com ela, há sim um parâmetro conservado, nesse caso chamado de conservação do momento angular.


Após um processo árduo para que ela pudesse permanecer em Gottingen com uma posição de professora, ela finalmente conseguiu, mas o cargo não lhe pagava o piso salarial de professores da época. Noether agora trabalhava com teoria de anéis.


Há poucos registros de como Noether se sentia a respeito das dificuldades de ser mulher na academia. Após um encontro com uma jovem matemática tcheca, Olga Taussky, ela relatou que estava feliz por mulheres finalmente estarem sendo aceitas no campo, por mais que a quantidade de alunas que tivesse fosse tão mínima que seus alunos eram conhecidos como “os meninos de Noether”.


O ano de 1932 foi um marco no que diz respeito a representatividade de mulheres na matemática, Noether foi convidada para discursar na sessão plenária do Congresso Internacional de Matemáticos. Ela já havia ido ao congresso antes, aos 26 anos, acompanhando seu pai, Max Noether, orador convidado para o ICM realizado em Roma e retornou em 1928, sendo ela própria oradora.


O fato de ter demorado cerca de sessenta anos para que outra mulher recebesse novamente o convite para sessão plenária, em 1990, exemplifica a importância do trabalho de Noether, que transpôs o sexismo e as dificuldades existentes, sendo reconhecida por sua contribuição sólida na matemática.


Em abril de 1933, no entanto, todas as conquistas de sua carreira até ali não bastaram para Alemanha Nazista e, por conta de sua origem judia, Noether precisou se mudar para os Estados Unidos onde lecionou como professora visitante no Bryn Mawr College, na Pensilvânia, até o fim de sua vida. Morreu por complicações cirúrgicas devido a tumores no ovário em 1935.


A história de Noether e de outras tantas cientistas inspiram outras mulheres a transpor as dificuldades de uma carreira numericamente dominada por homens, escrita por homens e celebrada por eles. Elas são frequentemente esquecidas e suas contribuições muitas vezes minimizadas e pouco comentadas. Falar sobre elas é, sobretudo, uma forma de luta.


 
 
 

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