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#AVozDelas I

  • Por: Isabela Branco
  • Apr 9, 2020
  • 6 min read

No primeiro #AVozDelas, trouxemos a voz de Vânia Aparecida da Costa para uma conversa sobre sua trajetória e mulheres na ciência. Ela possui graduação em Tecnologia Mecânica pela Faculdade de Tecnologia de São Paulo (2001), graduação em Física pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2007), mestrado em Engenharia e Tecnologia Espaciais pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (2010) e doutorado em Engenharia e Tecnologia Espaciais pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (2015). Tem experiência na área de Física, com ênfase em Nanoestruturas, atuando principalmente nos seguintes temas: materiais cerâmicos, alumina, dióxido de titânio, nanoestruturas semicondutoras e PbTe.


Como foi tua trajetória na ciência? Então foi assim, né... Eu sempre gostei muito de matemática e até posso dizer que tinha mais facilidade (comparado com os colegas). Eu também gostava muito de escrever, aí quando eu estava no ensino fundamental, como eu escrevia bem, os professores elogiavam... eu pensava em cursar jornalismo. Mas quando eu entrei no ensino médio, eu fiz ensino técnico e veio mais forte essa questão das exatas, principalmente da matemática. A minha primeira graduação na verdade foi tecnologia mecânica porque eu queria trabalhar e eu via a indústria como uma oportunidade e segui por essa área. Depois que eu trabalhei por um tempo, comecei a me interessar mais por física. Eu comecei a ler algumas coisas sobre mecânica quântica, não entendia muito bem o que era tudo aquilo e foi onde eu decidi: fui ver o curso que podia me explicar aquilo e eu vi que era física, então fui fazer bacharelado e depois eu fiz uma formação pedagógica para me licenciar. Na graduação eu fiz iniciação científica e depois fui seguindo, fui fazendo mestrado, doutorado e me apaixonei pelo ramo da pesquisa, fui bolsista desde a graduação desenvolvendo projeto de pesquisa, então fiquei alguns anos aí... Desde o segundo ano de graduação até o doutorado. Foi bastante tempo, a graduação em física foram cinco anos, mais dois anos de mestrado e cinco anos de doutorado (eu quase estourei o tempo para terminar). Foi dessa maneira que aconteceu. Você cita que desde muito nova gostava de exatas. Você já sentiu que em algum momento alguém já te desestimulou por você ser mulher ou já duvidou da sua capacidade? Não. Comigo nunca aconteceu, nada que eu tenha percebido, de discriminação, sabe? O que eu percebo é que para uma mulher se dedicar a ciência e a ciência requer uma doação muito grande, as vezes as mulheres acabam sendo prejudicadas, por exemplo, suas publicações, pelo fato de ter que assumir outras responsabilidades. Eu percebi isso assim quando eu fui mãe. Eu fui mãe durante o doutorado. E assim, quando eu fui mãe, tinha sido criado uma portaria muito recente (acho que um ano antes, ou dois anos antes) de promover uma licença maternidade para bolsistas, mas isso deveria ser algo natural e não foi, teve que uma professora pesquisadora ter encabeçado isso e ter pedido junto à capes CNPq para que isso ocorresse. Eu tive até sorte, porque eu consegui receber durante quatro meses a mais. Mas e as que vieram antes? Então eu percebi assim, por conta dessa dedicação que a gente tem que ter na ciência, assim, são muitas horas de estudo, exige concentração... quando vem essa questão da maternidade isso acaba diminuindo sua produtividade e isso eu percebi em outras colegas, não só comigo. É só nesse sentido que eu percebi que há uma diferença [entre homens e mulheres]. Que bom que você teve o apoio de outras mulheres dentro da academia. Quanto a isso, quantas colegas de turma você teve? Teve diferença da graduação para pós-graduação? Em relação ao número de meninas, sempre menor, então assim, por exemplo, no curso técnico de quarenta alunos tinham nove meninas, pelo que que eu me lembro. Na graduação em física, a gente começou junto, nos dois primeiros anos era unificado licenciatura e bacharelado, aí tinha um pouco mais de meninas. Mas para o bacharelado depois, foram duas, eu e uma colega. Depois no mestrado e no doutorado a mesma coisa, dá para contar nos dedos. Na graduação ou na pós, você teve aluna com mulheres? Sentiu que essas mulheres afetaram tua graduação? Sim, eu tive aula com professoras, tanto na graduação quanto na pós. Sempre são em menor número, isso é visível no departamento, então assim, se tem dez professores, três são mulheres, mais ou menos nessa proporção que eu me lembro. E senti, senti sim. Porque você vê que é possível. É aquilo, um homem nunca vai entender perfeitamente uma mulher porque ele não é mulher, ele não vai entender quais são as dificuldades (aliás, eu não diria dificuldades, mas sim particularidades) que a mulher passa, como por exemplo, ter filhos, ciclo menstrual... essas coisas. E você vê que existe alguém que passa por isso e tem o mesmo sucesso que outra pessoa que não tem essas particularidades, é muito positivo sim.


Como professora de física e matemática do ensino médio, você nota diferença entre meninas e meninos quanto suas relações com a área de exatas?


Na verdade o que eu percebo é assim: lá... falando especificamente da ETEC [Escola Técnica Estadual de São Paulo], a gente lida com duas situações distintas, quando você vê a quantidade de meninas que entram para fazer [ensino técnico integrado ao médio de] Eletrotécnica, é muito menor do que a quantidade que entra para fazer Logística, a maior parte da sala de Logística é de menina, senão 50%, e na eletrotécnica você conta nos dedos. Então já no processo tem uma seleção, porque não sei, talvez as meninas não se sintam a vontade para seguir uma carreira mais de exatas e tal... então isso é uma coisa que já vem antes. No Ensino Médio, também a maioria são garotas, então é mais equilibrado e aí eu percebo que existe um engajamento feminino e as meninas vão bem. Não sei se pelo fato de terem uma professora mulher, quando você tem uma figura lá na frente isso acaba te incentivando de alguma maneira, mas eu sinto que existe uma boa participação, um bom interesse. Eu não tenho essa percepção de que existe um "isso não é para mim", as vezes a pessoa não gosta ou não tem afinidade, mas isso independe de menina ou menino, independe do gênero. Não sinto essa diferença na sala de aula. O que tenho uma percepção é pela escolha da carreira já no ingresso, aí já tem um número menor de meninas e meninos e você vê que o interesse pelas áreas são distintos, quando quando você vai ministrar a aula o interesse de ambos é igual. E as vezes assim desperta alguns talentos, que você claramente "não, eu nunca pensei que física era isso, que dava para entender esse tipo de coisa", então é muito bacana, é um despertar na verdade, uma mudança de olhar, um despertar para ciência que ocorre ali. De repente lá no ensino básico esse despertar não tenha sido feito, por isso que tem alguns projetos de incetivo a participação de olimpíadas de meninas lá no fundamental porque eu não sei o que acontece antes disso. Eu posso falar da minha percepção de ensino médio, primeiro ano, gente que veio de outra escola que chegou ali na ETEC. Essa é a percepção que eu tenho, que no ensino médio, quando a pessoa não escolhe uma carreira específica, vai fazer o núcleo normal, o interesse é igual, não percebo diferença. Você acha que é necessário encorajar garotas a ingressarem nas áreas de exatas? É necessário encorajar sim, porque a gente vê que existe uma disparidade na participação feminina na área de exatas. Então, sim, tem alguns movimentos que já acontecem para incentivar nesse aspecto: teve o Dia das Meninas e Mulheres na Ciência que eu achei muito legal: era um evento que eu desconhecia, não sei se é recente. E tem sido feito projetos de incentivo e cada vez tem sido mais evidente. Diante do contexto [político] que a gente está vivendo, esse incentivo precisa ser maior no nosso país. E algumas pessoas que estão à frente dos projetos, algumas mulheres, têm percebido isso, tanto é que na última premiação da olimpíada de física aconteceu algo muito interessante: a maioria que compôs a mesa para entrega dos prêmios, eram mulheres e elas fizeram discursos falando sobre essas questões de gênero, sobre a importância de oportunidades iguais, de incentivo a participação feminina na ciência, foi muito legal. Isso é algo positivo. Não precisa ser uma grande ação, mas pequenas ações já acabam ajudando nesse aspecto e incentivando meninas, uma coisa que diz assim "sim, você pode, você é capaz, tão capaz quanto um garoto". Tem que ter incentivo sim, os projetos [Tecnovation School for Girls] da universidade são bacanas. O que eu sempre faço é incentivar meus alunos a irem em mini-cursos, para conhecer outro lado da ciência, não só aquilo que é visto na escola. Incentivo à participação de olimpíadas também. A gente precisa de representantes femininas para divulgação ou que homens divulguem de uma maneira à atingir meninas. Na escola, por exemplo, tem a participação feminina mais ativa talvez por uma questão de representatividade, porque quem está fazendo um convite é uma professora, sabe? Se um professor fizer o convite, talvez ele tenha que usar um contexto para incentivar. Resumidamente: precisa de incentivo sim por conta dessa desigualdade que é visível. A maneira é: com discursos, com diálogos abertos nas escolas a respeito disso, incentivo da participação feminina em projetos que envolvam ciência e nos projetos já existentes que são eventos dentro das universidades e olimpíadas.


 
 
 

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